A cidade de Lucca é rodeada por muralhas medievais que cercam o centro da cidade, onde se encontra a minha casa de infância.
Com o passar do tempo, apercebi-me que as muralhas não eram apenas uma estrutura física, mas tornaram-se também num limite à minha expressão e ao meu crescimento. Nesta pequena cidade italiana, ser uma mulher tornou-se numa das minhas maiores dificuldades e desafios.
Porquê?
Era uma criança muito sensível, hipersexualizada desde muito nova e vista pela aparência do meu corpo em vez do seu conteúdo, o que me fez ter uma perceção muito limitada do que podia fazer como mulher. As opções eram poucas e estereotípicas, o que me levou a ter ansiedade, que por sua vez me fez ter anorexia aos 15 anos de idade.
Graças à minha mãe por me ter aberto os horizontes e me motivar desde muito cedo a viajar pelo mundo sozinha, decidi sair do ninho e voar, e criar o meu próprio caminho depois de ter terminado o secundário. Acontecem coisas fantásticas quando nos começamos a questionar a nós próprios e aquilo que nos rodeia!
E sair do ninho levou-a até… Central Saint Martins, em Londres.
A Central Saint Martins em Londres estimulou a minha exploração e perceção daquilo que as pessoas tentam expressar, oferecendo uma nova via para tradutores e intérpretes empáticos e inteligentes de sentimentos.
Começando por ter estudado design de comunicação gráfica, e especializando-me depois em cinema, a essência do meu trabalho cresceu com o uso de histórias como instrumentos ativos de forma humana e social.
A minha prática gira em torno da idealização e direção criativa de projetos utilizando ferramentas como a empatia, ajuda mútua, intercâmbio e resolução de problemas. Interagir com um grupo de pessoas sobre um tema específico, aprender mutuamente mostrando aos outros o que há para dizer, é o que mais me interessa quando crio algo.
“O meu objetivo era criar uma história íntima, mas também universal”
O seu filme baseia-se em centenas de fotos e vídeos de familiares. Como foi o processo?
Em termos técnicos, a parte mais difícil foi escrever a história. Assim que esta estava escrita, gravei-me a lê-la em voz alta. De seguida, digitalizei as fotos e coloquei-as numa sequência o mais eficaz possível. A única regra das fotos é que tinham de mostrar os nossos dentes.
Inicialmente, foquei-me nas duas coisas que tinha da minha avó, fotos velhas e as recordações da minha mãe. Mas depois senti a necessidade de experimentar mais com o uso da fotografia como ferramenta narrativa. As fotos tornaram-se na ferramenta que guiava e questionava as histórias que deram forma à minha identidade, bem como as da minha mãe e da minha avó.
Combinando o som e a visão, o passado e o futuro, a perceção e a imaginação, o meu objetivo era criar uma história íntima, mas também universal.
Porquê este título, “Matriosca”, o nome da boneca russa?
Tudo começou quando, numa tentativa de me representar, desenhei uma boneca russa, a matryoshka. A boneca inspirou-me a comparar a minha identidade com a sua forma e o seu significado. Comecei por assumir que, tal como a matryoshka foi desenhada de modo que cada boneca coubesse dentro da outra, a identidade de uma pessoa é formada por um conjunto de camadas.
Além disso, a etimologia da palavra matryoshka (uma mulher com princípios honestos), levou a uma investigação da minha identidade como mulher e das mulheres a quem eu saí.
Para melhor compreender as mulheres que vieram antes de mim, pesquisei os arquivos da minha família. As fotos velhas da minha avó e as conversas que estas iniciaram entre mim e a minha mãe inspiraram-me a analisar e a contar a história da minha própria boneca.
Tal como as bonecas que encaixam uma dentro da outra, vi a imagem de mim própria a encaixar na minha mãe, e ela na minha avó. Comecei, então, a analisar a minha própria matryoshka (ou matriosca em italiano).
Uma palavra sobre a 99 e a legendagem multilinguística do seu filme?
Ao crescer com o italiano, francês, holandês e inglês, apercebi-me que, apesar de usarmos palavras diferentes para nos exprimirmos em locais diferentes, os sentimentos são universais.
Estou alinhada com a visão e missão da 99. Quebrar a barreira linguística, destacar histórias que precisam de ser contadas e partilhas, é uma causa verdadeiramente necessária. Ser parte de uma maior rede de histórias e pessoas é o que torna o trabalho da 99 tão especial.
Acredito que somos todos aliados, de uma maneira ou outra, a tentar perceber quem somos e o que fazemos. E é através de espaços como a 99, através de histórias e filmes, que encontramos maneiras de visualizar as nossas necessidades e sonhos, nesta aventura para encontrarmos a nossa voz.
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